BIOENERGIA – Conheça o trator movido a ‘esterco’

Motor que compõe máquina da New Holland usa biometano como fonte de energia, um subproduto do biogás que é abundante no esterco e urina de aves, suínos e bovinos e outras matérias orgânicas

Eron Zeni/DivulgaçãoO motor do protótipo T6.140, da multinacional New Holland, usa biometano como fonte de energia. | Eron Zeni/Divulgação

O motor do protótipo T6.140, da multinacional New Holland, usa biometano como fonte de energia.

Em uma granja de galinhas de postura e gado de corte de Santa Helena, no Oeste do Paraná, uma novidade tem atraído o olhar dos curiosos. Desde o fim de dezembro a fazenda usa um trator no qual não vai diesel, gasolina ou qualquer outro combustível líquido. Em vez de tanque, a máquina tem cilindros, pois é movida a gás. Mas tem mais um detalhe: não é qualquer gás. O motor do protótipo T6.140, da multinacional New Holland, utiliza biometano como fonte de energia. Trata-se de um gás extraído da fermentação de matéria orgânica – no caso dessa propriedade paranaense, de dejetos de bovinos e de aves.

A promessa da empresa que desenvolveu a máquina é de uma redução de até 40% nos gastos com combustível. Mas esses dados foram obtidos com base em testes na Europa. Por isso, a fabricante decidiu trazer o veículo para algumas propriedades rurais brasileiras para tirar a prova. “Na Europa os tratores têm usos diferenciados, como no transporte de grãos, puxando carretas nas estradas [etc]. Sabemos que o uso no Brasil em algumas circunstâncias pode ser mais intenso. Estamos coletando aqui todos os dados para fazer uma avaliação detalhada para aprimorarmos o produto”, diz Nilson Righi, gerente de marketing de produto da New Holland.

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Na propriedade da família de André Haacke, em Santa Helena, eles já investiram cerca de R$ 750 mil na estrutura automatizada que coleta os dejetos e processa o gás.

Testes

O T6.140 é um protótipo, ou seja, não é um veículo comercial. Foram produzidas apenas quatro unidades: uma está na Europa, uma na Oceania, uma na América do Norte e outra no Brasil. Na Europa, os testes ocorrem desde 2013. Lá inclusive já há uma segunda versão do trator a biometano, com motor desenvolvido especificamente para máquina agrícola. O T6.140 possui um motor veicular adaptado. Não há ainda previsão de lançamento comercial no Brasil, mas assim que for lançado na Europa, se houver demanda aqui, é possível começar a fabricação da máquina em aproximadamente seis meses.

Nos próximos dias, o trator movido a ‘esterco’ será exposto no Show Rural, em Cascavel. Depois, a máquina será levada para uma fazenda com biodigestores na região de Castro, no Paraná, onde fica a uma das maiores bacias leiteira do Brasil.

A propriedade da família de André Haacke, em Santa Helena, não foi escolhida para começar os testes aqui do Brasil por acaso. Há quatro anos, eles trabalham em um projeto de biodigestores para o aproveitamento do biogás na geração de energia elétrica e como combustível de parte dos carros. Eles já investiram cerca de R$ 750 mil na estrutura automatizada que coleta os dejetos e processa o gás. “Antes tinha a questão do meio ambiente e dos vizinhos que reclamavam bastante do cheiro forte. Com o biodigestor, fizemos de um problema uma solução”, relata.

No entanto, como ressalta o diretor presidente do CIBiogas (projeto vinculado à Itaipu), Rodrigo Regis de Almeida Galvão, ainda há entraves que precisam ser melhorados para incentivar projetos de biodigestores no meio rural. Na avaliação dele, somente o Paraná, que é um dos grandes produtores mundiais de aves e suínos, teria hoje a capacidade para fabricar 8,7 bilhões de metros cúbicos por ano de biogás. Ele estima, porém, que o estado produza atualmente menos de 5% desse potencial. “Ainda temos entraves tributários e precisamos de um planejamento energético nacional que envolva o biogás”, diz.

Informações técnicas

O trator tem capacidade para armazenar 300 litros de metano comprimido. O veículo economiza até 40% em combustível e emite 80% menos gás carbônico do que o modelo a diesel. Um dos grandes desafios da fabricante é melhorar a autonomia. Enquanto com um tanque de diesel é possível trabalhar por cerca de dez horas, com o gás o tempo máximo de trabalho chega a cinco horas.

* O jornalista viajou a convite da New Holland.

Antonio C. Senkovski*

Fonte : Gazeta do Povo

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