Leite ensaia recuperação no mercado internacional

Sem grandes oscilações desde o início do ano, os preços dos lácteos no mercado internacional registraram aumento expressivo desde agosto. Mas, de acordo com especialistas, ainda não é possível dizer se essa recuperação terá fôlego ou se as altas recentes são pontuais e resultado de movimentos especulativos.

Os preços internacionais vinham patinando em decorrência da fraca demanda da China e do aumento da oferta de leite, especialmente na União Europeia, após o fim do sistema de cotas de produção em abril de 2015. Mas esse quadro começou a mudar, principalmente do lado da oferta, de acordo com os analistas.

Sinais de que a China estaria voltando ao mercado internacional também contribuem para sustentar os preços. Não há ainda, porém, dados precisos sobre a demanda do país asiático.

Diante disso, nos últimos três pregões internacionais para comercialização de lácteos, realizados pela plataforma Global Dairy Trade (GDT), as cotações do leite em pó integral subiram 34,34%, para US$ 2.793 por tonelada. Os preços nos leilões quinzenais capitaneados pela neozelandesa Fonterra são referência para o mercado internacional.

Mesmo com essa valorização o produto importado segue competitivo no mercado brasileiro, o que significa que o déficit da balança de lácteos deve crescer ainda mais (ver a matéria Déficit em lácteos já é três vezes maior que o de 2015).

Uma das regiões onde a produção de leite começou a cair foi a União Europeia, observa Rafael Ribeiro, analista da Scot Consultoria. Depois de subir todos os meses entre abril de 2015 e maio deste ano – o que levou à queda do preços pagos aos pecuaristas europeus e a intervenções da UE -, a produção no bloco recuou 1,6% em junho passado na comparação com igual mês de 2015 e 2,1% em julho em relação ao mesmo intervalo do ano passado, acrescenta Valter Galan, analista da MilkPoint, consultoria especializada em lácteos.

Tão importante quanto a queda na produção na União Europeia – onde os estoques de lácteos ainda são elevados – é o recuo na oferta de leite da Argentina, segundo Galan. O país, que exporta 30% do que produz, deve ter uma retração de 2 bilhões de litros em sua produção – inicialmente projetada em 11 bilhões de litros – por conta de problemas climáticos e da alta dos custos devido ao aumento dos preços dos grãos para a alimentação do rebanho. O Uruguai também está produzindo menos leite.

Ribeiro cita ainda um ajuste na oferta de leite nos Estados Unidos, com a entressafra. Contudo, Galan lembra que também nos EUA os estoques de lácteos são elevados. "Ainda não dá para dizer que a alta tem fôlego", avalia. Mas ele considera que os níveis históricos de preços para o leite integral, entre US$ 3.200 e US$ 3.500 por tonelada, podem ser vistos ainda antes de 2017 em função de uma eventual antecipação de compras por parte de países importadores.

Os especialistas estão atentos também à produção na Nova Zelândia, maior exportador mundial de lácteos, onde a safra começou em junho passado. As projeções indicam recuo de 3% na produção do país nesta safra, mas em julho houve leve alta.

Num dos últimos leilões da plataforma GDT, informações de que haveria maior demanda da China por leite integral fizeram as cotações do produto subir 19%. No entanto, segundo Valter Galan, ainda não há dados disponíveis recentes comprovando essa maior demanda. Entre janeiro e julho, as importações chinesas de lácteos cresceram 13% em relação a igual período de 2015, de acordo com o Instituto Nacional do Leite, do Uruguai.

Marcelo Costa Martins, diretor-executivo da Viva Lácteos, que reúne laticínios brasileiros, também cita o aumento da demanda chinesa como uma das explicações para a alta dos preços. Para ele, a valorização recente "é um alento", mas as cotações ainda estão muito abaixo de patamares registrados em 2013 e 2014, quando a tonelada do leite em pó ficou na casa dos US$ 5 mil.

Projeções feitas pela própria plataforma GDT indicam que o leite integral pode alcançar a casa dos US$ 3 mil por tonelada em março do ano que vem, cita Ribeiro, da Scot. "A demanda ainda não se recuperou", observa, acrescentando que estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) indicam que as importações mundiais de lácteos devem somar 943 mil toneladas este ano, abaixo das 1,014 milhão de toneladas de 2015.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor

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