Problemas na gestão afetam cooperativas e empresas cerealistas

Pelo menos cinco cooperativas gaúchas entraram em liquidação voluntária desde 2012

06/10/2014 | 05h02

Problemas na gestão afetam cooperativas e empresas cerealistas Prisicla Heldt/Especial

Cotrijui (na foto, a unidade de Agusto Pestana) soma mais de R$ 1 bilhão em débitos e entrou em liquidação voluntáriaFoto: Prisicla Heldt / Especial

Em contraste com o  momento protagonizado pelo agronegócio brasileiro nos últimos anos, cooperativas e cerealistas gaúchas lutam para honrar dívidas com produtores rurais e fornecedores na tentativa de não desaparecer do mercado. No mesmo ano em que o Rio Grande do Sul colheu safra histórica de grãos, empresas ligadas ao setor entraram em recuperação judicial e liquidação voluntária para tentar reverter crises. Como explicar o antagonismo de cenários? Em uma avaliação simples, a má gestão é apontada como responsável. Ao mergulhar na individualidade, surgem outras explicações para a decadência – como a euforia exacerbada diante da alta de preços e investimentos audaciosos.

Pelo menos cinco cooperativas gaúchas entraram em liquidação voluntária desde 2012. A mais recente foi a Cotrijui, uma das maiores do Estado em associados e faturamento, que aderiu ao mecanismo há pouco mais de uma semana. Com dívidas superiores a R$ 1 bilhão, a cooperativa escapou, pelo menos por enquanto, de ter a unidade de Chiapetta leiloada devido a execução de cobrança referente a um empréstimo do BNDES. Agora, com prazo de um ano, prorrogável por mais um, os dirigentes buscarão sanar dívidas e, por consequência, proteger o patrimônio avaliado atualmente em mais de R$ 2 bilhões.

– Tentaremos repactuar nossas dívidas com a prestação de serviços de estocagem de grãos e com parcerias comerciais. Cogitamos vender alguns bens, como fazendas em Mato Grosso e prédios urbanos – adianta o presidente liquidante, Vanderlei Fragoso, nomeado em uma assembleia tumultuada e contestada por parte dos associados.

À frente da Cotrijui há pouco mais de um ano, Fragoso atribuiu os débitos acumulados a administrações malconduzidas ao longo da última década:

– Há um evidente descompasso. O agronegócio cresceu, e a cooperativa entrou em decadência.

Situações semelhantes em diferentes cidades

Na região das Missões, um dos liquidantes da Cotrisa, com sede em Santo Ângelo, o contador Valdir da Silva Lima compara as cooperativas a prefeituras, por terem, muitas vezes, sistemas de gestão e riscos semelhantes.

– A cooperativa não pode ser um cabide de empregos. Estamos conseguindo organizar a casa, acreditamos que será possível dar a volta por cima – diz Lima.

Também em liquidação voluntária, Cotrimaio, Comtul e Coagrijal (veja no quadro ao lado) buscam alternativas para resguardar o patrimônio dos associados.

– Essas crises não são recentes, vinham se arrastando há anos e acabaram por estourar agora – avalia Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias (Fecoagro-RS).

Em comum, analisa o dirigente, as dificuldades têm em seu DNA  além de gestões pouco profissionais, também o atual estreitamento de margens e necessidade de maior cautela na hora de expandir. Uma das principais cooperativas do Estado, a Cotrijal tem como premissa “fazer escala antes de querer crescer.”

– Cada unidade precisa se pagar. Sempre que nós temos oportunidade de expandir os negócios, avaliamos se não estamos dando um passo maior do que a perna – ressalta o presidente da Cotrijal, Nei Mânica.

Em liquidação voluntária

Cotrijui – Ijuí: entrou em liquidação voluntária em 27 de setembro. Com dívida de mais de R$ 1 bilhão, faturou cerca de R$ 500 milhões em 2013. Foi fundada há 57 anos, tem 19 mil associados e 1,8 mil funcionários.

Cotrimaio – Três de Maio: em liquidação voluntária há um ano e meio, tem 11,5 mil associados. Com R$ 200 milhões em dívidas, faturou R$ 280 milhões em 2013. Foi fundada em 1968.

Cotrisa – Santo Ângelo: com dívida de R$ 211 milhões, entrou em liquidação em junho. Fundada em 1956, tem 9,3 mil associados e faturou R$ 45 milhões no ano passado.

Coagrijal – Jaguari: completou em julho dois anos de processo de liquidação. Nesse período, pagou 3% da dívida de R$ 40 milhões e renegociou parte do restante. No ano passado, faturou R$ 39 milhões. A cooperativa, com 1,4 mil associados, foi fundada em 1957.

Comtul – Tucunduva: fundada há 57 anos, aderiu à liquidação em julho. Tem cerca de 5 mil sócios. Procurada por ZH, a direção não informou o valor da dívida, nem o faturamento.

Após expansão, Camera pede recuperação judicial


Produção de biodiesel na unidade de Ijuí está desativada (Foto: Priscila Heldt, especial)

Se a decadência em cooperativas se arrasta há anos, a crise em empresas cerealistas tem origem recente. No último ano, após reduzir pela metade o faturamento e o número de funcionários, a Camera entrou com pedido de recuperação judicial, em setembro, na Vara de Falências de Porto Alegre.

O processo foi remetido à Justiça de Santa Rosa, que ainda não se manifestou. O endividamento é de quase R$ 800 milhões. Uma das causas da crise, diz o diretor Roberto Kist, foi tentar, a partir de 2009, industrializar grãos, por meio de fábricas de óleos, farelos e rações para diversificar o negócio familiar, com mais de 40 anos.

– Éramos uma empresa e nos transformamos em uma indústria.

A Camera prevê faturar em torno de R$ 900 milhões neste ano, ante R$ 2,4 bilhões em 2013. Uma das apostas frustradas foi em usinas para produção de biodiesel – que só em 2014 recebeu impulso com aumento da mistura do biodiesel ao óleo diesel. As duas unidades de processamento de óleo, em Ijuí e Estrela, estão paralisadas.

– A soja atingiu patamares recordes, tornando a exportação vantajosa ao produtor. Não tivemos como concorrer com a China e segurar o grão aqui para abastecer nossas indústrias – diz Kist.

Com capacidade para armazenar 1 milhão de toneladas e com unidades em 60 municípios gaúchos, a empresa pretende voltar ao foco de cerealista.

– Não vamos abandonar a indústria, mas recalibrar os negócios para nos adequar ao atual ciclo econômico e preservar o patrimônio – explica o executivo.

Neste ano, ao menos duas empresas do setor fecharam as portas: a Multirural, de Tupanciretã, e a Cereais Planalto, de Tapejara.

– O mercado tem altos e baixos. É preciso conter a euforia em momentos de alta de preço. O retorno dos investimentos não costuma ser imediato – afirma Dilermando Rostirolla, presidente da Associação das Cerealistas do Rio Grande do Sul (Acergs).

Mecanismos para sobrevivência

Recuperação judicial de empresas

Como funciona?
É destinada à recuperação econômico-financeira de empresas, que solicitam à Justiça abertura do processo. Se aceita, o juiz concede 60 dias para que seja apresentado um plano de recuperação, o qual deve ser submetido à aprovação dos credores. Se confirmada, é nomeado um administrador judicial para supervisionar o processo.

Quais as consequências?
As execuções ficam suspensas por 180 dias, em geral, mas o prazo poderá ser ampliadas por decisão do juiz. Permite fazer negociações com os credores para quitação do passivo e reestruturação da empresa. Os bens podem ser vendidos sem risco de responsabilidade pelos passivos. Inviabilizada a recuperação no prazo estipulado, a empresa é submetida à falência.

Liquidação-extrajudicial de cooperativas

Como funciona?
É destinado a regular a dissolução de sociedades cooperativas, que não se sujeitam à falência e nem podem se beneficiar da recuperação judicial. Exige assembleia-geral extraordinária para os associados deliberarem pela liquidação. Conselhos de administração e fiscal são destituídos. São nomeados três fiscais e eleito um ou mais liquidantes, que terão autonomia para venda de ativos e pagamento dos passivos.

Quais as consequências?
As execuções contra a cooperativa são suspensas por até dois anos e é incentivada a renegociação com credores. Diferentemente da recuperação judicial, não é permitido impor aos devedores redução ou parcelamento de dívidas. Se não houver pagamento total do passivo, tem início o processo judicial de insolvência civil.

Fontes: advogados Fernando Pellenz, Luis Felipe Spinelli e Gilberto Deon Correa Junior, do escritório Souto, Correa, Cesa, Lummertz & Amaral advogados

Fonte: Zero Hora

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